terça-feira, 4 de setembro de 2007

comunicação noturna


Carlos Drummond de Andrade começa assim seu texto sobre o poeta e amigo a pouco falecido.

Experiência difícil, de que saio derrotado: reler os textos do escritor que acaba de morrer. A morte de João Alphonsus é ainda muito nova, não ocupou ainda um lugar definitivo nesse porão de lembranças que cada um de nós anexa à própria vida. É morte que ainda está se processando, se gravando: como se João, que havia tempos lutava contra a doença, lutasse ainda, mas agora contra o arquivamento no rol das simples recordações, contra a atitude plácida dos que estão estendidos, sobretudo contra a entrega, a submissão dos mortos aos vivos, a renúncia à crítica, à participação, ao contato... Realizo dificilmente a passagem do estado ativo para esse estado neutro em que os outros começam a deliberar por nós, a decidir do que já escrevemos ou fizemos, em que somos presa do carinho, do cálculo ou da indiferença alheia; estado, enfim, em que a personalidade sofre a última e irreparável agressão, e se deixa substituir pelo mito, laboriosa ou apressadamente construído na imaginação dos que sobraram.

4 comentários:

praticaradical disse...

Que é a morte?
Que isso significa?
Que o pior de tudo sobreveio.
Nos fudemos...
Todos.
Tudo.
Nonada.
E a história de virar estrela
é o Papai Noel do sobrevivente.

Anônimo disse...

por onde caminha a luz espargida pela vela da chama da vela?

Anônimo disse...

Todos nós somos velas.
Alguns se apagam aos poucos.
Alguns nem mesmo se acendem...
Outros viram orquídeas!

Anônimo disse...

A vela continua acesa.
Esse fogo
é o que sai das entranhas,
das vísceras
que às vezes nos alimenta